Danny Bond da vida real

Juliana (nome fictício), brasiliense de 28 anos, se identificou com a personagem Danny Bond, de Paolla Oliveira, na minissérie “Felizes para Sempre?”, exibida pela Globo. Acompanhante de luxo que fez a vida em Brasília, Juliana falou sobre ficção e realidade que envolveram a trama em relato à coluna Rede Social, do jornal Folha de S.Paulo.

Na minissérie, a personagem de Paolla seduz um empreiteiro corrupto e sua mulher, ao ser contratada pelo casal para um “ménage à trois”. Loura de 1m60cm, 54 kg e olhos castanhos, Juliana afirma: “Danny Bond sou eu”.

Bem articulada e espirituosa, a jovem revela detalhes de sua vida e conta como foi parar no mundo de sexo e luxo de Brasília. “Eu tinha 16 anos, era estudante do ensino médio, filha de uma família classe média, quando comecei a me relacionar com homens mais velhos, todos ricos e poderosos. Eles pagavam as minhas contas. Eu não gostava da minha vida, do lugar onde morava no Plano Piloto e sempre almejei mais”, relembra.

“Fui vendedora de uma butique de luxo, atendia mulheres ricas, socialites e sonhava em ser como elas. Como era muito bonita, sempre fui assediada e me destacava pela personalidade. Então, fui montando uma personagem: a menina bonita, liberal e moderna. Era diferenciada na cor e no corte de cabelo. Era fashion e a mais popular. Sempre transitei entre as classes de A a Z. Sei atuar em todos os lugares e tudo era descoberta: o sexo, o meu poder de sedução e o luxo.”

Assim com Danny Bond na minissérie, a personagem criada por Juliana agradou a um importante empresário local. Aos 20 anos, a jovem conquistava o coração e as benesses de um homem que a promoveu de recepcionista em uma de suas empresas a amante. Com ele, viveu no centro do poder os primeiros capítulos de um romance que teve como cenário a Academia de Tênis de Brasília. Nos anos 1990, em plena Era Collor, a estrutura hoteleira e esportiva era a mais requintada da Capital Federal.

“Por quase dez anos vivi na ‘vibe’ de mulher de milionário. Ele tinha 56 anos quando começamos a nos relacionar. Logo no começo do nosso caso, ele colocou as cartas na mesa: ‘Sou casado, tenho filhos. Minha vida é complicada. Se topar a parada, não vai se arrepender’. O que eu tinha a perder?”, recorda Juliana.

“Eu topei na hora. No dia seguinte, saí da casa de minha avó, com quem estava morando, pois briguei com minha mãe por causa do meu estilo de vida. Fiquei rica da noite para o dia. Tinha cartão de crédito ilimitado, ganhei uma BMW, quando antes circulava com um carro popular. Os filhos dele tinham a minha idade. Fomos morar juntos. De cara, ele me botou em um chalé na Academia de Tênis. Era vizinha da então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, que morava lá. Tomava café da manhã com ministros do Collor. Imagina tudo isso na cabeça de uma menina de 20 anos.”

No entanto, Juliana sabia que uma hora o seu conto de fadas chegaria ao fim. “A fila sempre anda”, diz. “No meu caso, depois de sete anos juntos, ele se apaixonou por outra. Nessa altura, eu já tinha engravidado e tido um filho dele. Luciana Gimenez não teve um filho de Mick Jagger? Comigo foi a mesma coisa. Minha vida mudou. Ele era um homem muito generoso. Adora nosso filho, é um ótimo pai. Fui uma mulher exemplar, recompensada com uma pensão e uma casa que vale US$ 1 milhão”, revela.

“Vivi o fim do caso com dignidade. Você é um troféu e logo eles vão querer conquistar outro. É o ciclo natural. Esse tipo de homem é movido a conquistas, ao poder de bancar a mulher mais bonita da noite. Sou pé no chão. Tenho um sensor apurado, sei sair bem das situações”, afirma.

Após o rompimento, Juliana passou quase uma década levando uma vida de classe média, namorando homens da sua idade e longe dos políticos da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes. No entanto, há dois anos, ela voltou a circular entre os engravatados do poder.

“Todas as terças e quartas, quando os políticos começam a chegar de suas cidades, nosso grupo se reúne em algum restaurante badalado de Brasília. Você vai para esses encontros para ser avaliada e se submete a isso à espera do prêmio maior, que é ser uma das escolhidas da noite. É uma coisa discreta, como se fosse um jantar entre amigos. Só que é organizado por uma espécie de cafetina, que deve ter uns 50 anos e faz o estilo amigona deles e das mulheres. O que está em jogo ali não é só ser escolhida por um político ou empresário por uma noite, mas o desejo de que um cara desses se apaixone por você. É uma roleta russa. Dá adrenalina. Mexe com a vaidade”, conta.

Há oito meses, Juliana conheceu um deputado. “Ele me convidou para uma viagem a Miami. Passamos cinco dias na casa de um milionário amigo dele. Fiquei impressionada com tanto luxo e riqueza. Não rola grana, mas presentes. Os caras bancam tudo. Nem precisa ser boa de cama. Todos usam Viagra ou Cialis. Passam a noite inteira ligados”, relembra.

“Transamos em todos os ambientes da mansão. Fizemos um filme pornô atrás do outro. Como tinha câmera para todo lado, fiquei bem conhecida dos porteiros. Imagina se uma fita dessa for parar na internet ou numa comissão de decoro parlamentar? Todo mundo ia querer saber quem era a loura misteriosa”, revela Juliana.

Com quase 40 anos, a acompanhante ainda se espanta com a vida de luxo que leva quando está com homens poderosos. “É claro que você fica imaginando o custo daquilo tudo. Fiquei passada quando mexi no closet do dono da casa de Miami. Achei uma gaveta cheia de relógios. Abri outra e contei US$ 15 mil em cash. Era a grana para o fim de semana. Esses caras não pagam nada com cartão nem cheque. Não deixam pistas da gastança. Isso me diverte, dá adrenalina. Mexe com minhas fantasias e me excita”.

Assim como na minissérie, Juliana revela histórias de glamour e de sacanagem protagonizadas por ela ou amigas e que poderiam ter sido roteirizadas em “Felizes para Sempre?”. “Já ouvi muita história de transas em aviões e helicópteros. Um ex-senador era conhecido por transar enquanto sobrevoava Brasília em seu jatinho, assim como um conhecido empresário que fazia festinhas aéreas regadas a cocaína”.

“Ano passado fui convidada para uma festa de aniversário em outra capital. Foi organizada pela amante de um parlamentar importante que chamou 30 meninas. Ele levou dez amigos. Fui contemplada com o mais bonito e poderoso deles.”

Por fim, a acompanhante conta que está escrevendo sua história e já pensa em formas de se garantir no futuro. “A minha cartada agora é conseguir um emprego de assessora parlamentar na Câmara dos Deputados. Posso dar um ‘upgrade’ no mandato do meu ficante, decorar o apartamento dele, ser uma personal”, afirma.

“A crise política chegou para todo mundo. O dinheiro fácil vai sumir de Brasília. Não que a maracutaia vá acabar, mas eles estão mais temerosos. Nos próximos anos, a farra tende a diminuir com todas essas operações da Polícia Federal. Quero me garantir com salário e gratificações. Antes, nunca tive vontade de estudar para concurso, mas agora ando pensando. Já imaginou a Danny Bond aprovada em um concurso público? Seria uma reviravolta e tanto na ficção e na realidade, não é mesmo? Meu foco agora é trabalhar com crachá, batendo ponto no Congresso. Por que não?”, finaliza.